UrbanorâmicasExposição

SobreaPeleaVelocidadeeSobraseSobrado

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EntrópicaPaisagem

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DasEscamasDesprendidas

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AchadaemPedaços

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DoisPicosQuatroPedras

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OndeoSolNuncasePõe

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LugardosPlanosFincados

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EntreJanelas

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Geografia do Sensível por Melina Almada



O pavilhão israelense na Bienal de Arquitetura de Veneza em 2000, deu a seguinte definição de cidade: A cidade é um habitat humano que permite com que pessoas formem relações umas com as outras em diferentes níveis de intimidade, enquanto permanecem inteiramente anônimos.



No século XXI a ideia de cidade está relacionada à condição de aproximação, de intimidade entre os sujeitos. Condiciona-se aos melhores métodos e instrumentos capazes de proporcionar conforto, em especial, no deslocamento do sujeito pela urbe. O urbanismo, o saber e a técnica da organização e da racionalização das aglomerações humanas, que permitem criar condições adequadas de habitação às populações das cidades. Se a Revolução Industrial solicitou do homem moderno um novo modo de pensar a dinâmica da cidade, o advento da fotografia solicitou a esse mesmo homem que mudasse sua maneira de olhar a paisagem.

A paisagem, esta extensão de território que o olhar alcança num lance;  deixa de se configurar com a dicotomia Romântica | Neoclássica e torna-se, com o Impressionismo, uma paisagem menos idílica, mais habitada. Uma paisagem talvez já da urbe, tão veloz quanto essa mesma urbe pretende um dia ser. A constante mutação deste organismo vivo, a cidade, desencadeia a ininterrupta atualização também do frame, também desse universo que se tornará paisagem. Assim, compreendemos a paisagem como nos define Georg Simmel, em A filosofia da paisagem , “uma parte do todo”. Deste modo se constrói Urbanorâmicas, como oito partes do todo. Partes impossíveis de se captar com o olhar em um lance. Então, Simmel nos mostra a difícil relação entre o uno e a parte,



​​Constantemente, os limites auto-traçados de cada paisagem respectiva são vencidos e dissolvidos por este sentimento e a paisagem, destacada violentamente, autonomizada é então atormentada pela obscura pré-ciência deste contexto infinito - assim como uma obra humana se apresenta com uma produção objetiva, responsável por si e não obstante permanece ligada de maneira difícil de exprimir, sustentada por esses limites e sempre manifestamente atravessada por sua onda. A natureza que no seu ser e no seu sentido profundos tudo ignora da individualidade, se encontra remanejada pelo olhar humano - que a divide e decompõe em seguida em unidades particulares – nessas individualidades que chamamos de paisagens.​
 

Cada uma das oito paisagens construídas tensionam os objetos, as cidades e os sujeitos ali colocados. Elas, as paisagens que aqui se apresentam a vocês, são tanto o fruto de um organismo vivo como a cidade, quanto refletem sobre ela e lhe devolverá os elementos que dela recolheu.

Se a velocidade de produção e consumo da cidade é o catalisador para a construção de Urbanorâmicas, ao mesmo tempo em que lança uma reflexão sobre a contemporaneidade e o consumo mantém em sua constituição algo do abstrato da matéria de que é composta. Reafirma o lugar destes objetos ou fragmentos em uma condição desprovida de sentidos éticos. Faz-se assim pintura.



Constituída e operada a partir do pensamento pictórico, Urbanorâmicas trata de uma tradição da pintura de paisagem, ao mesmo tempo que dialoga com a densidade das propostas abstratas, conceituais, de acumulação. Não propõe uma nova visada à história da arte, não trata de rupturas, trata de acúmulos. Camadas. Justapostas a partir de um eixo z, Urbanorâmicas não invade o plano para seu interior, como no Renascimento. Pelo contrário, extrapola dele. Toma parte no espaço do espectador, de maneira cortante,  pungente.



Encontramos conexões nas fotografias aéreas que El Lissitzky e Malevitch realizam das cidades e transportam para suas pinturas. Promovendo uma modificação na relação dos eixos de visualização com a paisagem. Ao ver a cidade de cima, a sua pintura reforça a geometria e o escalonamento.


A paisagem, destituída de sua naturalidade, conservada em seus aspectos agora citadinos, caminha para uma abordagem que se afasta das projeções céu, mar e terra. Ou das transições do azul, para o verde e para o cinza, como queria Godard. A paisagem, aqui, é feita de pessoas. Ou ao menos, de seus índices, suas memórias. A matéria, antes desconexa, é então conformada em aglomerações, em composições que lhes conferem novos sentidos, que lhes propõe novos arranjos, novas memórias.



A ação do artista sobre a matéria é a da transposição e do acúmulo. Converte o refugo em matéria plástica, em algo para ser olhado.  Opera a partir de um resquício duchampiano, revela ao ambiente da galeria uma matéria incompatível com sua alvura, ainda que conceitual.

Se a cidade, como diz Benjamin, é o templo do flâneur, Borem apresenta em Urbanorâmicas uma imensa catedral, como a de Kurt Schwitters. Da ação direta na cidade, é no flanar por ela que os elementos dispersos e encobertos da memória da urbe e seus habitantes passa a ser tomada como ponto de interesse.

As paisagens capturadas por este flanar na cidade são recompostas, como um quebra-cabeça desconexo dessa realidade fragmentada. Às memórias da cidade são aderidas as memórias do indivíduo. Os livros, os cromos, o cristal. Tais índices retornam o sujeito para a cidade, humanizam os elementos-destroços.

Os acúmulos são acordados em suas materialidades, em suas tonalidades. Compõe, ocupando o frame horizontal da paisagem. Conduzem, por camadas e camadas o espectador, o projetando em cada uma delas, o transformando também em flâneur. Estratificando também esse sujeito e suas sensibilidades, em topologias de cidades invisíveis, tateando uma geografia do sensível.



Abril 2012.

Melina é mestre em teoria e crítica da arte pela Ufes.